quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Uma viagem no elefante, ou seria com o elefante?


A esta hora os companheiros da caravana já deram com certeza pela falta do ausente, dois deles declararam-se voluntários para voltar atrás e salvar o desditoso náufrago, e isso seria muito de agradecer se não fosse a fama de poltrão que o iria acompanhar para o resto da vida, Imaginem, diria a voz pública, o tipo ali sentado, à espera de que aparecesse alguém a salvá-lo, há gente que não tem vergonha nenhuma.” (Saramago, José – A viagem do Elefante 2008 / Companhia das Letras)


Começou hoje a viagem do elefante. O mesmo seria dizer, de uma forma mais simples mas certamente menos dedicada, que foi hoje que eu comecei a ler “A Viagem do Elefante”, o novo livro de José Saramago. Confesso que, apesar de ainda só ter lido (“O Evangelho Segundo Jesus Cristo” e “Ensaio Sobre a Cegrueira”), sou fã dele e do seu estilo.
Segundo Saramago, este livro poderia não ter sido escrito, tais foram os problemas de saúde que o afetaram, “é uma metáfora da vida humana”. Ele explica: “o elefante que tem de andar milhares de quilómetros para chegar de Lisboa a Viena, morreu um ano depois da chegada e, além de o terem esfolado, cortaram-lhe as patas dianteiras e com elas fizeram uns recipientes para pôr os guarda-chuvas, as bengalas, essas coisas”, referiu. “Quando uma pessoa se põe a pensar no destino do elefante (...) no fundo, é a vida de todos nós. Nós acabamos, morremos, em circunstâncias que são diferentes umas das outras, mas no fundo tudo se resume a isso.”
O livro é um conto português, baseado em pouquíssimos dados, mas promete dar que pensar. Como estou me atendo aos detalhes e grande viagem que parecer ser minha deixo que autor descreva melhor a sua obra: "O livro narra uma viagem de um elefante que estava em Lisboa, e que tinha vindo da Índia, um elefante asiático que foi oferecido pelo nosso rei D. João III ao arquiduque da Áustria Maximiliano II (seu primo). Isto passa-se tudo no século XVI, em 1550. E, portanto, o elefante tem de fazer essa caminhada, desde Lisboa até Viena, é essa viagem."
Então eu estou embarcando nesta viagem, vamos comigo, não deixe o Elefante partir.



sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Uma Barcelona que parece New York.



















"As pessoas boas dormem muito melhor à noite do que as pessoas más. Claro, durante o dia as pessoas más se divertem muito mais." (Woody Allen)

Há alguns anos descobri mais que um cineasta, descobri Woody Allen. Com seu humor ácido, inteligente e mais que isso com seus filmes que ultrapassam o romance e transcendem. Esta semana fui ao cinema ver o “Vicky Cristina Barcelona” com ansiedade e nervosismo como em toda estréia de filmes do Woody se é que posso chamá-lo assim.
Apesar de não se passar em Nova Yorque o filme como quase todos, ele se sente em casa.
Uma história inusitada, para um desfecho que não precisa de muito já que a história já se encarregou de tudo. Neste longa Penélope Cruz está ótima e engraçada. Vale a pena ver mais uma obra de arte desse mais do que diretor.
Um filme para se ver de joelhos. Palmas para Allen, ou fica melhor Woody?




Elisa Lucinda - Singela HOMENAGEM




















"Mon Animal"




Eu a vejo quase todas as manhãs. Não é exatamente bonita. Aliás ela é de uma feiúra estranha como se carregasse uma boniteza espalhadaem si, nos gestos e não nos traços exatamente. Não importa. Importa é que a vejo acompanhada perenemente pelo seu cão.Um pastor alemão com cara de bom companheiro. E o é. Eu vejo. Olha-a muito, encaixa seu focinho entre os joelhos dela,brinca com ela, gane querendo dengo. Ela também, essa minha vizinha de uns quarenta e vividos anos, brinca denão-solidão com esse cachorro específico; gosta dele, ri: Não Duque, assimnão, deixa o moço, Duque, me espere. Não vá na minha frente assim, cuidado com o carro, menino. Ele a olha comoquem agradece. E vão os dois, não em vão, pelas ruas de Copacabana sob o sol, felizes quesó vendo. Eu vejo. Ela é camelô; nos encontramos no elevador e eu:- Vocês se divertem tanto, é tão bonito. - É, nos conhecemos na rua. Ele olhou pra mim bem nos meus olhos. Eu estavatrabalhando. Vi logo que era um cão bem cuidado fisicamente mas faltava-lhe carinho. Deixei minhas bugigangas (ela vende coisas que querem imitar jóias antigas)por não sei quanto tempo e fiquei agachada na calçada na Avenida NossaSenhora, só namorando ele. Decidimos que ele viveria comigo. Naturalmente. Tudo aconteceu "naturalmente", ela frisou, como se quisesse dissipar de mimqualquer sombra de suspeita de um possível roubo. Noutro dia no mesmoelevador, ela com seu carrinho de balangandãs, eu e Duque.O elevador apertado e ela continuou femininamente a conversa do últimoelevador nosso: - Tenho certeza que ele é de câncer. É muito sensível. Só falta falar.Né Duque? ... ele não é lindo? Eu disse: Lindíssimo. E você que signo é?- Ah, sou capricórnio mas com ascendente em câncer, combina sim.Eu vejo Duque lambendo as mãos dela, as magras mãos cujos dedos ela ofereciade propósito e distraidamente a imordida dele. Eu olho admirando receosa por conta dos afiados dentes dele.Quase não entendo de cães. Você tem medo... ô não ofenda ele; Duque entende pensamentos e não gostou doque você pensou. Jamais me morderia, jamais me trairia. Né Duque? Senti opensamento de Duque latindo que jamais a trairia. Achei bonito. Chegamos. Tchau, bom trabalho. Tchau Duque. Fui para a rua pensando longamente nos dois. Depois pensei nosmistérios da astrologia e perdi o fio do meu pensamento.Ao final da tarde avistei pela janela Duque e Angela indo ver o crepúsculona praia. Depois vi os dois voltando sorridentes e caninos, sob a noite estrelada; elacom fitas de vídeo penduradas ao braço; sempre conversando com ele. Tenho inveja de Angela. This is the true. O animal que eu quero não moracomigo, não almoça mais comigo, não brinca mais, não me telefona, não meadvinha os pensamentos, não me acompanha ao crepúsculo, não gane querendodengo, nossos signos parecem não maiscombinar. O animal que quero, pensa demais e por isso não passeia mais comigo.E o pior: Não me lambe mais.