sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Elisa Lucinda - Singela HOMENAGEM




















"Mon Animal"




Eu a vejo quase todas as manhãs. Não é exatamente bonita. Aliás ela é de uma feiúra estranha como se carregasse uma boniteza espalhadaem si, nos gestos e não nos traços exatamente. Não importa. Importa é que a vejo acompanhada perenemente pelo seu cão.Um pastor alemão com cara de bom companheiro. E o é. Eu vejo. Olha-a muito, encaixa seu focinho entre os joelhos dela,brinca com ela, gane querendo dengo. Ela também, essa minha vizinha de uns quarenta e vividos anos, brinca denão-solidão com esse cachorro específico; gosta dele, ri: Não Duque, assimnão, deixa o moço, Duque, me espere. Não vá na minha frente assim, cuidado com o carro, menino. Ele a olha comoquem agradece. E vão os dois, não em vão, pelas ruas de Copacabana sob o sol, felizes quesó vendo. Eu vejo. Ela é camelô; nos encontramos no elevador e eu:- Vocês se divertem tanto, é tão bonito. - É, nos conhecemos na rua. Ele olhou pra mim bem nos meus olhos. Eu estavatrabalhando. Vi logo que era um cão bem cuidado fisicamente mas faltava-lhe carinho. Deixei minhas bugigangas (ela vende coisas que querem imitar jóias antigas)por não sei quanto tempo e fiquei agachada na calçada na Avenida NossaSenhora, só namorando ele. Decidimos que ele viveria comigo. Naturalmente. Tudo aconteceu "naturalmente", ela frisou, como se quisesse dissipar de mimqualquer sombra de suspeita de um possível roubo. Noutro dia no mesmoelevador, ela com seu carrinho de balangandãs, eu e Duque.O elevador apertado e ela continuou femininamente a conversa do últimoelevador nosso: - Tenho certeza que ele é de câncer. É muito sensível. Só falta falar.Né Duque? ... ele não é lindo? Eu disse: Lindíssimo. E você que signo é?- Ah, sou capricórnio mas com ascendente em câncer, combina sim.Eu vejo Duque lambendo as mãos dela, as magras mãos cujos dedos ela ofereciade propósito e distraidamente a imordida dele. Eu olho admirando receosa por conta dos afiados dentes dele.Quase não entendo de cães. Você tem medo... ô não ofenda ele; Duque entende pensamentos e não gostou doque você pensou. Jamais me morderia, jamais me trairia. Né Duque? Senti opensamento de Duque latindo que jamais a trairia. Achei bonito. Chegamos. Tchau, bom trabalho. Tchau Duque. Fui para a rua pensando longamente nos dois. Depois pensei nosmistérios da astrologia e perdi o fio do meu pensamento.Ao final da tarde avistei pela janela Duque e Angela indo ver o crepúsculona praia. Depois vi os dois voltando sorridentes e caninos, sob a noite estrelada; elacom fitas de vídeo penduradas ao braço; sempre conversando com ele. Tenho inveja de Angela. This is the true. O animal que eu quero não moracomigo, não almoça mais comigo, não brinca mais, não me telefona, não meadvinha os pensamentos, não me acompanha ao crepúsculo, não gane querendodengo, nossos signos parecem não maiscombinar. O animal que quero, pensa demais e por isso não passeia mais comigo.E o pior: Não me lambe mais.



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