sábado, 2 de agosto de 2008

Um jardim teatral


















“A síntese de elementos artísticos faz o espetáculo, e é em função dele que se deve pensar o teatro. Espetáculo teatral e teatro podem ser considerados sinônimos, e se confundem como expressão artística específica” (Magaldi, Sábato. 2004. Iniciação ao Teatro)

As vezes é necessário se confundir o espetáculo teatral e o teatro, pois esta arte que se pode dizer efêmera simplesmente pelo fato de se realizar somente durante a sua duração. Então a partir daí passa a se eternizar o texto e deixar de lado, ou melhor, se esquecer o espetáculo e o ator. Neste caso que assisti Jardim das Cerejeiras de Anton Tchekhov, dispensa falar do texto e cabe falar do espetáculo.
O diretor Moacir Chaves materializa no palco algumas das questões mais importantes de Tchekhov e os personagens se movimentam em um discurso inquieto e material, o cenário é simples composto por diversos tapetes, pedaços de grama e grandes bancos que se transformam, porém somente na nossa imaginação ao longo dois quatro atos.
O Jardim título do espetáculo é a memória afetiva de uma aristocracia ociosa e criados audaciosos. O texto foge do lugar comum e se aproxima da atualidade chegando em alguns momentos tentar se esbarrar em alguma canção atual ou insinuar os anos mais próximos. Além disso, existe uma grande preocupação com atuações que se destacam na presença de Deborah Evelyn, como Liubov, expressiva na evocação de um passado luminoso e sofrido, e o de Leandro Daniel Colombo, ótima presença como Lopakhin. Deborah emociona com o seu choro e com o seu sofrimento e Leonardo convence e se firma ao longo do espetáculo.
Outro detalhe a se destacar é o figurino, que é elegante, bem cortado, modelado e feito sob medida para um texto clássico que une a aristocracia e seus interesses. A cada momento passado, a cada ato, a cada instante o figurino se adéqua cada vez mais há um texto que dispensa comentários.
Confesso que não pude deixar de lembrar que Dogville de Lars Von Trier que se aproxima em momentos como a passagem dos atos e as descrições de cenas como a conversa com o armário que só existe em nossa imaginação.
Mas se o diretor foge do comum ele acerta e cresce assumindo os rascunhos do texto e vence todas as barreiras na cena final, onde um mordomo velho e sem nada senta no banco e se vê esquecido em pelas únicas pessoas que ele achava que tinha. Como ele mesmo diz que não resta, mas nada senão deitar, a nós o mesmo nos resta, sentar e apreciar um texto único para uma direção que foge do comum dentro de uma nostalgia que ainda não tivemos.

3 comentários:

Unknown disse...

fiquei com vontade de assistir o espetáculo :) bjo

Anônimo disse...

Me perdi na atuação dos atores e na descrição da peça no seu blog. Me encontrei en Dogville e sem paredes ou divisórias me encontrei no jardim decepado por machados...

O seu texto me cheira a cerejas secas e se materializa como geléia de cereja, do jardim....

Anônimo disse...

Bjs e parabens pelo blog, está lindo.

Leozito